Um dos meus livros deste Outono foi Quaresma Decifrador, Fernando Pessoa – novelas policiárias por ele escritas ao longo dos tempos e por si mesmo compiladas. É sabida a predilecção de Pessoa pelo género policial, paixão e/ou divertimento pouco importa. Por mim, nunca considerei o policial um género nada menor, ao invés, penso que desenvolve a perspicácia e a argúcia, desperta no leitor um olhar mais atento.
O policial respeita regras próprias. Nebulosos crimes ou delitos, inextrincáveis pistas, ardilosas armadilhas e emaranhados pressupostos. O mistério proporciona um dote de suspensão, a propensão para a conjectura, e, por fim, a revelação e confidência.
O policial respeita regras próprias. Nebulosos crimes ou delitos, inextrincáveis pistas, ardilosas armadilhas e emaranhados pressupostos. O mistério proporciona um dote de suspensão, a propensão para a conjectura, e, por fim, a revelação e confidência.
Humano é o que o policial é. Finuras e subtilezas. Teatro dos homens. E imaginação, enredo. Se bem pensarmos, já os surrealistas, universo do fantástico, na senda de Alan Poe, levaram para a pintura este intricado de argumentos e perspicácias.
Agatha Chistie chegou-me, na adolescência, através da colecção Vampiro. E Agatha, ainda que não tão intrincada quanto outros, continua a fazer as minhas delícias. A ela devo horas de deleite. À minha lista acrescento Conan Doyle - o sherlockiano, Rex Stout – o homem que misturou a razão às orquídeas, Georges Simenon - que deste fiz o percurso a pé da sua residência [Boulevard Richard Lenoir] ao seu gabinete no Cais des Orfèvres, numa paixão pela cidade-luz, Stanley Gardner, Patricia Highsmith e outros tantos - mais recentemente, descobri Anne Perry, deliciosa para quem gosta de um tempo vitoriano. Muitos destes títulos foram lidos à luz da lanterna, debaixo de lençóis, quando eram mais do que horas de dormir e havia que fazê-lo às escondidas.
Quanto a Agatha, a minha personagem preferida não é Poirot, embora muito o estime, Miss Marple continua a ser a minha eleita. A argúcia daquela velhinha, o cheiro das aldeias inglesas, as cores dos pequenos jardins, o tricot, trazem-me um calor de infância, aquele tempo em que acreditamos que tudo e todos são eternos.
A certos livros e autores de meninice e juventude associamos noites de Inverno, férias de Verão, sarampo ou varicela [defendo que as vacinas foram, em muito, responsáveis pela ausência do gosto de leitura dos jovens de hoje, mas esse é um outro assunto]. Grande parte da minha geração terá feito a sua iniciação na leitura com os livros dos Sete e dos Cinco, depois a colecção Mistério, com o não menos dotado Frederico, o Gordo. E não me parece, de todo, uma extravagância, considerar estes como os primeiros policiais e Enid Blyton a mentora nesta incursão.
Por muito que o livro policial seja, por alguns, tido como menos válido, os que, como eu, cedo o descobriram, reconhecerão que o seu tributo é ensinar a amar os livros.
Voltando a Pessoa, e atentando em preitos e tributos, 2008 foi ano de Pessoa e de Oliveira.
Os grandes não morrem, usa dizer-se. Na verdade, porque muito que os lembremos, que sobre eles se escreva fazendo-os presente, e de alguns se faça mito, os grandes ficam presos ao seu tempo. E presos no sentido de não os desligarmos da época e lugar em que viveram, por isso permanecendo envoltos numa aura de nostalgia. Lembrá-los é trazermos lugares que nos são queridos, porventura épocas em que gostariamos de ter vivido.
Fernando Pessoa nasceu em 1888 e Manoel de Oliveira em 1908. Na verdade, separam-nos apenas duas décadas. Que são duas décadas na História da Humanidade? Peanuts. Mas eis que um - agraciado com uma vida secular - é tão presente, e o outro, havendo partido há umas décadas apenas - e ainda que figura viva nos escaparates e nos meios de comunicação ou círculos literários - temo-lo enquanto personagem de um tempo e História, parte dos arquivos históricos. O tempo, sem dúvida o grande senhor da vida, a tecer estas circunstâncias. Impossível evocar Pessoa sem o associar ao Chiado tertuliano, às suas rondas pela cidade, seja, a uma Lisboa já desaparecida.
Retomando as associações acima, os livros não vêm sozinhos, acompanham-nos um espectro de saudade. Trazem cheiros, luminosidades, vivências. Talvez por isso não deixo de associar Julio Dinis a caramelos Solano :), remetendo-me para umas longínquas férias numa remota aldeia no meio de uma serra também ela com cheiro a verdes hoje já desaparecidos.
Retomando as associações acima, os livros não vêm sozinhos, acompanham-nos um espectro de saudade. Trazem cheiros, luminosidades, vivências. Talvez por isso não deixo de associar Julio Dinis a caramelos Solano :), remetendo-me para umas longínquas férias numa remota aldeia no meio de uma serra também ela com cheiro a verdes hoje já desaparecidos.

Quando às vezes pensava na ordem de uma futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de Mensagem figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos grande — um livro de umas 350 páginas —, englobando as várias subpersonalidades de Fernando Pessoa ele-mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária, que ainda não consegui completar.
PESSOA, Fernando. Quaresma Decifrador. Lisboa. Assírio e Alvim, p. 9
PESSOA, Fernando. Quaresma Decifrador. Lisboa. Assírio e Alvim, p. 9
